Nesta quinta-feira, nós, judeus de Porto Alegre e do mundo inteiro, passaremos o dia sem comer e sem beber. Muitos se sentarão no chão ou em bancos baixos, como quem está de luto recente, e lerão em voz alta, à luz de velas e numa melodia própria, um livro bíblico inteiro dedicado ao choro: as Lamentações. É Tishá be-Av, data em que se recorda a destruição dos dois Templos de Jerusalém — o primeiro pelos babilônios, no século VI antes da era comum; o segundo pelos romanos, no ano 70.
Faz vinte e seis séculos. Não há ninguém vivo que se lembre, não há sobreviventes, não há testemunhas, não há sequer o edifício. E, ainda assim, a data continua no calendário, todos os anos, com jejum estendido. Uma cultura inteira decidiu não superar uma perda. Isso soa estranho aos nossos ouvidos, cercados por uma linguagem da superação: virar a página, ressignificar, fechar ciclos. O luto, entre nós, é uma etapa — e etapas terminam. O judaísmo fez o contrário: inscreveu a catástrofe no calendário, para que voltasse todo ano, sem promessa de encerramento.
Mas o mais desconcertante é a resposta que a tradição dá quando perguntada por que aconteceu. Havia uma explicação óbvia: Roma, o império que cercou a cidade, incendiou o santuário e escravizou os sobreviventes. E, no entanto, quando os rabinos do Talmude examinam a queda do Segundo Templo, não escrevem “Roma”. Escrevem sinat chinam, ódio gratuito: o ódio dos judeus entre si, as facções que prefeririam queimar os próprios depósitos de alimentos a ceder posições umas às outras.
O Talmude chega a contar a cena que teria dado início a tudo: um homem humilhado em público num banquete, por um convite entregue à pessoa errada, e os sábios presentes que assistiram calados. A guerra com Roma, sugerem, começou ali — não nas legiões, mas numa mesa onde ninguém interrompeu a humilhação de alguém.
É uma operação extraordinária, e não é masoquismo. É teoria política. Culpar o império é confortável e inútil: nada que eu faça amanhã muda o comportamento de Roma. Culpar o próprio ódio é insuportável e, por isso mesmo, é a única acusação que serve para alguma coisa. Só se conserta aquilo de que se é responsável.
Não é preciso ser judeu para reconhecer a cena. Uma sociedade partida em campos que já não se ouvem; cada lado com um inimigo externo perfeito, capaz de explicar tudo o que vai mal; e a hipótese mais desconfortável — a de que parte do estrago é obra nossa, entre nós — sendo justamente a que ninguém quer examinar. O Talmude examinou. E deixou o veredicto contra si mesmo por escrito, dentro do próprio texto sagrado.
Talvez seja isso o que um luto marcado no calendário faz de melhor: impedir que a história termine bem e que ela sirva de álibi. Obrigar a voltar, uma vez por ano, ao lugar em que a culpa era nossa.
E depois — só depois — vem o consolo. O sábado seguinte chama-se Shabat Nahamu, “consolai-vos”, pelas primeiras palavras que Isaías dirige ao povo derrotado. A tradição também pôs a consolação no calendário. Mas numa ordem que não se inverte: primeiro o luto inteiro, sem atalho e sem desconto. A consolação vem depois. Nunca no lugar; e nunca antes da hora.
Artigo original no site do Correio do Povo.

