Por que ainda jejuamos em Tishá be-Av?

Rab. Pablo Schejtman

É uma pergunta honesta, e vale fazê-la em voz alta antes de quinta-feira. Muitos de nós não rezamos pela restauração dos sacrifícios nem sentimos falta do altar. Se alguém nos oferecesse hoje o Templo reconstruído, com seus sacerdotes e seus animais, é provável que hesitássemos. Então o que estamos fazendo, exatamente, quando jejuamos?

Uma resposta possível, e talvez a mais fiel à tradição, é que aquilo que choramos ultrapassa o edifício: choramos o que a sua queda revelou sobre nós.

Os rabinos podiam ter culpado Roma — a acusação seria verdadeira e cômoda. Preferiram olhar para dentro: sinat chinam, o ódio gratuito que os judeus dirigiam uns aos outros. Foi a explicação mais dolorosa e, ainda assim, a única capaz de abrir uma saída, já que o comportamento de Roma estava fora do seu alcance e o próprio ódio, não.

É isso que voltamos a ler todos os anos: menos a crônica de uma derrota militar do que um diagnóstico a nosso respeito.

E aqui a data deixa de ser história antiga. Nenhuma comunidade se desfaz por causa de impérios; desfaz-se por causa de conversas que nunca se tiveram, de ofensas diante das quais todos se calaram, de posições defendidas com mais zelo do que as pessoas. Cada um de nós já assistiu a isso numa comunidade, numa família, numa amizade — e jamais foi preciso um exército. O Templo que ainda está em risco nada tem de pedra: é a possibilidade de continuarmos sentados à mesma mesa mesmo quando discordamos.

Por isso o jejum se parece mais com um treino do que com nostalgia. Uma vez por ano nos sentamos no chão, sem comer, e exercitamos algo em que não somos bons: permanecer diante de uma perda sem apressar a solução, sem procurar culpados do lado de fora, sem encerrar a história com um desfecho edificante. Vinte e cinco horas sem consertar nada.

Começamos na quarta-feira à noite, com a leitura de Eichá: um encontro árido, e assumidamente assim.

Depois vem o shabat.

O shabat que se segue a Tishá be-Av leva o nome de Nahamu — “consolai-vos” —, expressão que abre o capítulo em que Isaías torna a falar a um povo derrotado. Poderemos, então, encontrar-nos em dois estados: na quinta, ainda em jejum; no sábado, já sob o sinal do consolo. A ordem é deliberada e não se troca: primeiro se atravessa o luto por inteiro; só então se abre o consolo, que não substitui a perda nem se adianta a ela.

Que este Tishá be-Av nos encontre capazes da pergunta difícil, a mesma que os rabinos formularam e responderam sem se pouparem. E que o shabat de Nahamu, dois dias depois, nos encontre juntos e um pouco mais atentos uns aos outros.